LINGUÍSTICA TRIÁDICA

 

3 X 1”: A MINHA CONCEPÇÃO DE LÍNGUA(GEM)

(Este pensamento surgiu em minha pesquisa de doutoramento)

Na perspectiva bakhtiniana, pode-se afirmar que toda leitura seria uma subversão (PINHEIRO; LEITÃO, 2010, p. 105).

 

A língua é um produto social e um meio do qual nos utilizamos para materializar a linguagem humana e satisfazer nossas necessidades comunicacionais. Por ser um sistema social, a língua, na interação, sofre as coerções que convergem dos usos que fazemos dela, o que implica em mudanças provisórias em sua estrutura que, ao longo de seu percurso no tempo e no espaço, podem se tornar permanentes, até que sejam socialmente modificadas ou eliminadas. A língua é um sistema que o sujeito acessa por meio da interação e nele desperta sua consciência. Com o acesso ao sistema linguístico, o sujeito o adapta segundo as suas necessidades comunicacionais expressivas, moldando-o segundo sua própria ética/estética.

A língua é um sistema composto por duas faces: uma que é concreta, intimamente ligada aos atos de fala e às situações comunicativas concretas, ou seja, à interação verbal, e outra abstrata, no qual ela é dissecada para fins científicos, servindo, obviamente, a esse fim, incluindo aí o ensino. Essas duas faces da língua se retroalimentam, pois a língua enquanto objeto concreto, por um lado, fornece tudo o que a torna abstrata, ou seja, os materiais físicos e estrutura-organizacional informal. Por outro, a língua abstrata alimenta a consciência do falante sobre a língua concreta com tudo aquilo que a fundamenta e orienta sua formalidade normativa.

Sendo assim, a língua em minha concepção: 

1. É concreta:

1.1. é um sistema de signos relativamente estáveis, mutáveis e flexíveis: adaptativo às necessidades comunicacionais do sujeito;

1.2. é formada num processo ininterrupto, que se origina da interação histórico-sócio-discursiva dos falantes, tendo leis de formação sociológicas em sua essência;

1.3. não pode ser compreendida desconsiderando os sentidos e valores ideológicos que a constituem;

1.4. existe não em si e por si, mas somente em sua relação com a enunciação concreta, com o ato verbal concreto;

2. É abstrata (para fins científicos), pois:

2.1. articula-se duplamente organizando-se sintaticamente;

2.2. compõe-se de partes mínimas no plano da expressão que não possuem sentidos em si mesmas que, ao serem combinadas, formam elementos dotados de sentido, noutras palavras, partes mínimas no plano do conteúdo;

2.3. compõe-se por partes dotadas de sentido que se combinam para formar enunciados e discursos.

A linguagem é, em minha concepção, partindo das concepções que foram estudadas até o momento, os atos de interação comunicativa entre sujeitos, que envolvem material verbal (língua) e material extraverbal (expressões corporais, valores axiológicos, ideologia). A linguagem é constitutivamente dialógica, onde os enunciados que a compõe respondem a enunciações anteriores, ao mesmo tempo em que os atualizam e suscitam enunciados futuros, entrelaçando-os numa malha discursiva da qual não se pode conceber o início, tampouco prever o seu fim.    

A linguagem é uma malha, na qual se entrelaçam dialogicamente os fios enunciativos, axiológicos, dialógicos alheios que os sujeitos simbiotizam e aplicam ao seu discurso, tornando-os alheios próprios. Esses, com o decorrer do tempo, se materializam em experiências e produções linguageiras como discurso próprio.

Para Benassi (2016; 2016; 2017), o ‘Ser’ é formado por forças que atuam em um platô existencial, cujas convergências são forças oriundas da ideologia oficial que atuam sobre o ser moldando sua subjetividade; cujas insurgências são forças que podem surgir do ser em reação a “linha de montagem” da subjetividade; cujas divergências são forças resultantes do final processo de insurgência na serialização da subjetividade. Obviamente, essas forças se utilizam da língua(gem) e do discurso.

Na língua(gem), as forças convergentes atuam no sujeito no sentido de impor-lhe uma ideologia linguística oficial, ou seja, formal, cuja aceitação convergente (passiva) lhe permite o acesso ao mundo letrado e culto. Nesse sentido, a convergência é o passaporte para a erudição. No entanto, no dia a dia linguageiro, o sujeito, em suas enunciações, atua subvertendo coercitivamente o sistema, moldando-o ao seu querer dizer de acordo com o contexto linguageiro no qual está inserido, sendo que, em muitos desses contextos, importará ao falante apenas ser compreendido. Este aspecto é a insurgência do sujeito contra o sistema normativo convergente, pois ele se posiciona na ideologia linguística do cotidiano. 

O resultado desse processo serão atos e enunciação divergentes. Esses inseridos num contexto social, devidamente experimentados, atualizados e avaliados socialmente, podem, ao longo do percurso temporal-espacial de um dado sistema linguístico, penetrá-lo modificando-o. Não é por meio da língua(gem) formal e convergente que ela penetra na vida. Neste platô da ideologia linguística formal/oficial, a língua(gem) é puramente um sistema de regras normativas que é ensinado em salas de aulas, cujo objetivo é o bel-falar. É o sistema de regras normativas que a escola deve ensinar, segundo Câmara Júnior (2015, p. 20).

Assim sendo, a linguagem:

1)  é inseparável do sujeito que a experiencia enquanto ato;

2)  é singular, irrepetível, temporal e espacialmente situada;  

3)  é enunciativa por suscitar atos interacionais nos quais emerge o discurso;

4)  é axiológica por expressar a valoração do sujeito sobre seu objeto discursivo, seu posicionamento perante o outro e sua maneira de ver o mundo;

5)  é dialógica por atualizar e suscitar discursos que estão sempre entrelaçadas por vozes sociais com as quais se harmonizam numa malha chamada atividade discursiva;

6)  é uma arena de forças na qual se confrontam ideologia oficial e ideologia do cotidiano, apresentando-se como um conjunto de forças que o sujeito utiliza para forjar seu eu, seu mundo e o seu viver-agir;

7)  é um instrumento de poder que o sujeito utiliza de acordo com sua própria ética/estética.    

Vale a pena ressaltar que os atos concretos de linguagem são obtidos na interação e o abstrato é resultado do pensamento teórico, por um determinado viés que o regula. Esse último é que comporta a face especializada do sistema linguístico, que Volochinóv afirma ser obtida apenas por meio de abstração, mediante um “enorme” trabalho com uma determinada orientação cognitiva e a prática (2017, p. 176), do processo para o produto.

Lembrando Volochinóv (2017, p. 220), não se pode ignorar os tipos de interação discursiva em relação com as condições concretas de sua realização; as formas enunciativas singulares, relacionadas com a interação da qual são parte. Os gêneros discursivos verbais são determinados pela interação discursiva na vida e na criação ideológica. Após considerar esses pontos, a análise deverá revisar as formas da língua em sua concepção abstrata.

 
 

LIVROS

Em breve novos títulos
 
TRÊS ENSAIOS TEÓRICOS-FILOSÓFICOS (2022)
 
 
A língua é de origem sutil, vem do plano das ideias. Logo, o espírito ilumina a psique com ideias verbais, que são traduzidas em imagens psíquicas que estão atadas à ideia por algo que Saussure concebe como arbitrariedade. A psique iluminada realiza então a tarefa da tradução da ideia em imagens que são transferidas para o plano físico. Nele, essas imagens são novamente traduzidas: sua vibração é adensada e transformada numa cadeia de elementos linguísticos exteriores: em linguagem.

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