A partir de 11 de junho de 2024, os "contos" serão publicados no meu blog https://aprendizcaobenassi.blogspot.com/. Basta clicar no link do título que o "conto" abrirá em uma nova janela. Gratidão por me prestigiar com sua leitura.
Cazinha de papeizinhos, teto de papelão - 19 - ago. 2025
O amor; meu cárcere - 9 de ago. 2025
Capitão Biroca x a deslumbrada da república: um desafio nada republicano - 25 de jul. 2025
Os dias, na conturbada República da Banânia, corriam sem que os bananienses pudessem respirar, em lugar algum, desde as planícies verdejantes da Burocracia aos picos mais elevados da Legislação, algum ar de normalidade. Nesses dias, o que inundava os pobres narizes republicanos, era o fétido odor exalado do Pranalto Central. Na ensolarada republiqueta, onde o café era forte e a política mais ainda... leia o texto na íntegra clicando no link do título
Desgoverno: a República da Banânia e o sapo cachaceiro - 21 de jul. 2025
O escaldante sol de Cuiabrasa, cujas boas línguas davam conta de existir um para cada cuiabrasano, não era nem de longe, páreo para o calor infernal que emanava do Palácio do Pranalto, especialmente quando o anfíbio-chefe, o Sapo Cachaceiro, iniciava mais um dia de "trabalho". Seu nome, Egresso Etílico, era uma ironia amarga para a nação, que via sua economia encalhada como um girino no meio da lama seca.
O Sapo Cachaceiro, um batráquio de modos rústicos e fala empolada, quase sempre por aveludadas mentiras... leia o texto na íntegra clicando no link do título
O hino oficial da Jurislândia - 18 de jul. 2025
Contos de terreiro, n. 2 - Revelação Divina - 8 de jun. 2025
Minuto do Desguru, n. 2 - 17 de mar. 2025
Os causo da famia Silva - 27 de fev. 2025
E-mails para Carlia Mortezi - Resposta sobre o amor - 12 de jan. 2025
Contos de terreiro n. 2 - 10 de jan. 2025
Cara metade: o cupido e a outra metade do poema - 4 de jan. 2025
Jogatina - 30 de dez. 2024
Passagem - 10 de nov. 2024
E-mails para Carlia Mortezi - Sobre o amor - 26 de out. 2024
Contos de terreiro n. 01 - 13 de out. 2024
Conversa fiada - 10 de jul. 2024
Minuto do Desguru, n. 1 - 17 de jun. 2024
CONVERSA BAKHTINIANA DE COZINHA
Mal acabou de tomar o café da manhã, pegou a mochila, arrastou uma das pesadas cadeiras que abraçavam a enorme mesa de lenho maciço. Pegou um certo livro de capa branca com uma mancha verde quase circular, que nela trazia algo branco, parecido com uma mão de alguém que perdera um dos dedos, em cuja capa também se podia ler “Marxismo e filosofia da linguagem”.
Sentou-se, retirou e pôs novamente as surradas lentes sobre os olhos. Abriu lentamente o impresso, folheou-o parando numa página ainda bem no início, em que se podia observar o título “Capítulo 1 – Estudo das ideologias e filosofia da linguagem”. Passou os olhos pela lauda, como que se contasse as palavras, presumindo que seria uma longa leitura.
Suspirou fundo...
Pela sua cabeça pairava ainda uma névoa escura chamada signo. E os-problemas-da-filosofia-da-linguagem parágrafo a fora, iniciou a densa leitura bakhtiniana que forçosamente se empenhava em compreendê-la, enquanto era observado pela amada mãe, que se ocupou de retirar a mesa e dos afazeres domésticos que se seguiram.
Slepch...
Vira a página! Puxa levemente os óculos para baixo – como a professorinha de outrora fazia rotineiramente para conversar com os seus alunos – e pôs-se a olhar o emarando de letras por cima das lentes, enquanto sua mãe murmurou do fundo da cozinha:
- Não está entendendo, filho?
Retirou os óculos da face... respirou novamente e levou a mão aos olhos. Fez uma pinça e comprimiu levemente o cantinho dos olhos, enquanto meneou a cabeça em afirmação e replicou:
- Isto é muito difícil, mãe.
- Eu imagino... isso é mesmo necessário?
Indagou a ingênua senhora, ao mesmo tempo que lavava uma pequena chaleira como quem estivesse a acariciá-la, e acrescentou:
- Entendo... deve ser por causa do trabalho, n’é?!
- Sim, mamãe! Ajoelhou, tem que rezar!
- Mas... o que diz mesmo o livro?
Surpreso, ele, outra vez, respirou fundo. Um milhão de coisas passou rapidamente por sua cachola... uma ficou: sair pela tangente. Fitou a tão singela figura materna com carinho e meio que reticente afirmou:
- Signo!
Com ar de reprovação, lembrando as inúmeras lições eclesiásticas tomadas na igrejinha de chão batido e, mais recentemente, na igreja chique de piso elegante da rua, afirmou categoricamente:
- Mas filho... pra quê ficar perdendo tempo com isso?!
Uma pausa na conversa, seguida de um longo cafungar duro, podia dizer muito sobre a preocupação daquela senhora e, também, da de seu filho em sair da enrascada em que se metera. Como explicar para a doce matriarca, que o signo sobre o qual então se debruçara não era o do horóscopo, que sai todo dia no jornal ou no programinha fajuto da TV.
Fitou carinhosamente a querida senhora, sorriu amarelamente por um único lado da boca, puxou uma cadeira e convidou a ingênua mãe a sentar-se, enquanto serviu a si e a amada senhora uma xícara de amor quente.
- Mãe, deixa eu lhe falar um pouquinho de minhas estudanças!
E enquanto saboreavam doce e quente amor, ele contou a ela de uma certa experiência, tentando figurar-lhe o tal signo que não é o do horóscopo. Certa vez, explicou ele, estive em sala de aula com as comadres Didi e Rose, a professora Si e mais uma dúzia de outros pares e deu-se conta de que perdera sua caneta. Apavorado indagou:
- Viu minha caneta?
Comadre Didi retrucou de pronto:
- Sossega o facho! Com tantas canetas que você tem, perdeu uma... pega outra. Que importância tem.
A doce figura materna o interrompeu para explicar que uma caneta custa dinheiro... e que precisa dar a ela a devida importância:
- afinal de contas, foi isso que te ensinei! Não foi?!
Ele a fitou, respirou novamente e lhe disse:
- A questão mamãe é que ganhei essa caneta de uma amiga muito querida (a Fran), em um dos meus janeiros, em sinal de gratidão por tê-la ajudado nas estudanças do ensino médio. Essa caneta já está comigo há 15 anos.
Dizendo isto, procurou fazer a gentil senhora entender que a caneta, em si, era apenas um objeto, mas que, ao mesmo tempo, ela o remetia para algo além de sua própria natureza.
- Mas o que tem a caneta a ver com o tal signo?
Interpelou-o a sua progenitora.
Ele, outra vez, cafungou duro e voltou à explicação. Disse-lhe suavemente que essa valoração dele sobre a caneta, era apenas uma consciência dele... uma consciência própria, enquanto, interessada figura materna meneou a cabeça e sorriu como quem não estava de acordo. Ele tentou emendar:
- Mamãe, a caneta como objeto não pode significar nada... nada além de sua própria natureza. Mas essa minha caneta, ela possui outro valor simbólico que me leva às memórias daqueles tempos seringueirais, e me traz as lembranças do que vivi com essa amiga. Ela me leva aos sentidos que ela evoca...
- E...
- Então... isso... bem, no momento em que eu explico pra Didi tudo sobre essa caneta e ela me compreende, então... nós dizemos que aconteceu uma interação... e da interação surgem os signos ideológicos. A partir desse momento, essa caneta tem outros sentidos para nós dois...
- É muita coisa pra minha cabeça!
A querida matriarca se levantou ao afirmar isso, enquanto ele arrematou explicando que, n’outro dia, Didi, ao encontrá-lo, indagou-o se tinha encontrado A CANETA. Isso aconteceu porquê houve um acordo de sentidos na interação entre eles e surgiu dali um novo signo!
Um conto de Cao Benassi
Das cuiabanias, Abri/2017
DE VOLTA PRO MEU ACONCHEGO: A MULHER, A MOÇA E O RAPAZOTE
O dia foi muito cansativo. Da aula não tinha o que reclamar, mas da viagem de ida, melhor mesmo era esquecer... aquela coxinha gordurosa na rodoviária; a troca de ônibus; a dor de barriga; as cólicas; a diarreia; o banheiro do ônibus quebrado... enfim, desejava que a viagem de volta fosse um pouco mais tranquila, do que a que tive para chegar ao bendito local onde ministraria a aula como “professor tampão”, forma como há muito me autointitulava.
Quis sair dali rápido, mas os alunos me cercaram, queriam contato de e-mail (para o qual nunca escreveriam), queriam telefone (para o qual jamais ligariam ou enviariam mensagem - salvo engano, naquela época ainda não existia o “zap-zap”), e entre perguntas e respostas, surgiu até um convite para ser paraninfo da turma (formatura que jamais soube a data). Consegui pegar uma carona com uma aluna daquele longínquo polo até a rodoviária.
Ela era grande. Um prédio horizontal, transversal à avenida que lhe dava acesso, quase do lado de uma rotatória, bem verde, muito vistosa. O tal prédio parecia um tanto "quanto" abandonado. Um grande banheiro, mal cheiroso (como em todas as rodoviárias), seguido de uma entrada que dava acesso ao grande refeitório de um restaurante. Perpendicular ao prédio, uns poucos guichês das bilheterias, nas quais se podia adquirir o direito de sair dali... daquele ribeirão.
O carro parou e eu desci olhando o entorno como quem que não queria estar ali. Despedi-me da aluna e me dirigi a uns bancos que ficavam logo depois das plataformas de embarque/desembarque. Não havia nenhum ônibus no local. Olhei descrente o bilhete (que o pessoal da UAB me dera no dia anterior), constatando que deveria ficar esperando por uns 45 minutos (mais ou menos) se o “buzão” não atrasasse.
Os minutos se arrastaram vagarosamente. Levantei-me, apanhei a pequena mochila acomodando-a num único lado das costas e rumei para o banheiro. Após me certificar de que não era possível tomar um banho ali, me higienizei na pia mesmo, indo procurar alguma coisa para comer, desde que não fosse uma “bendita” coxinha.
Refeição feita, voltei ao banquinho (sito a frente das plataformas de embarque/desembarque). Sentei-me apreciando uma garrafa de Aquarius, enquanto era observado por uma mulher (que certamente chegou enquanto eu estava ausente). A bela sorriu discretamente e eu abaixei a cabeça (como quem conversasse com o próprio cansaço e com o desgaste daquela louca rotina).
Uma moto se aproximou e estacionou bem na minha frente. Dois rapazes desceram, um deles bem franzino e pequeno, além de bonito (qualidade que constatei quando o vi retirar o capacete). O tal rapazote apanhou uma mochila e se encaminhou para a bilheteria. Minutos depois, chegou uma mocinha com a qual, o rapazote se pôs a conversar animadamente. (Volta e meia, ele me encarava.)
Finalmente o ônibus chegou. Uma pequena fila se formou, em frente a porta do veículo e nela estavam a mulher, a moça e o rapazote. Fiquei sentado até que todos embarcassem e só́ então me apresentei ao motorista, de mochila a tiracolo e bilhete em punho. Entrei no “buzão” e me encaminhei para a minha poltrona (a décima quarta). Ao passar, a mulher me encarou suspirando e mordendo discretamente o lábio inferior. Cansado como estava, mal percebi (a ignorei e continuei em direção a minha poltrona). Acomodei a mochila no porta-embrulhos e me sentei para os 900 km que tinha pela frente.
Mal o “buzão” começou se arrastar pelo esburacado pavimento (daquela cascalheira), me levantei e fui até o banheiro “desaguar o joelho”, seguido pelo olhar insinuante do tal rapazote (que estava sentado ao lado da moçoila com quem conversava animadamente), bem ao lado do banheiro. Em seguida, saí e abri a geladeira, apanhei um copo d’água e voltei ao meu local, seguido pelo olhar cobiçador do rapazote.
Sentado à janela, eu olhava a paisagem passar ao lado. Muitas lembranças me vinham a cabeça (bons tempos aqueles!) Perdido em meus pensamentos, vi a moçoila passar e se acomodar em uma poltrona na frente da minha. Estranhando, levantei discretamente a cabeça, olhando para trás em direção à poltrona, sobre a qual viajava o franzino (porém bonito moço) que se engraçara comigo. Ele me olhava.
Algum tempo depois, voltei à geladeira para pegar outro copo d’água (seguido pelo olhar insinuante do rapazote), que, quando eu voltava, segurou-me pelo punho dizendo:
- Senta aqui comigo, lindão!
Titubeei! Pensei em meu companheiro que tinha ficado em casa. Por alguns segundos, quis declinar do convite, no entanto, me lembrei das “escapadas” do outro (e me sentei). Abri o copo d’água, o tomei (vagarasomente) enquanto era observado pelo mocinho que sorria.
- Como você é bonito!
- Obrigado!
- Você não é daqui, n’é?!
- Não...
Tempestivamente, fui surpreendido pela mão do rapazote que me agarrou forte a coxa (cafunguei duro). Não tive tempo para terminar minha colocação. Fui calado pelos lábios do rapazote que se colaram nos meus, sugando-os com força. A língua do rapazote invadiu-me a boca violentamente (senti um calor irresistível subir pelo corpo, enquanto minha respiração se tornou ofegante) a cabeça da minha verga pulsava... aquilo era simplesmente “delicioso”.
Vários minutos se seguiram no caloroso beijo, enquanto eu fui brutalmente apalpado pelo rapazote. Passado o primeiro impulso, nós nos olhamos com tesão.
- Delícia!
O rapazote fez tal exclamação enquanto me acariciou o volume (o meu pau pulsava). A calça já́ começava levemente a molhar (tenho o que se pode chamar de "pau babão"), tamanho era o meu tesão. Um longo e ardente beijo se seguiu, enquanto o rapazote me abriu a braguilha. Interrompi o beijo, me ajeitando (enquanto isso, expliquei a ele que era professor e não podia ser “pego” naquela “situação”). Explicação totalmente ignorada pelo rapazote, que enfia a mão por dentro da minha calça.
- Relaxa... já está escurecendo: curte!
Dizendo isto, o rapazote pegou o meu cacete, o retirou da cueca e o apertou (arregaçando e passando levemente a língua em torno da cabeça). Aquilo foi delicioso! Ofegante, acariciei a cabeça do rapazote, enquanto ele engolia o meu pau. Num suspiro profundo, peguei o rapazote pela nuca e o forcei a mover (rapidamente) a cabeça. Aquilo foi a melhor coisa que podia ter me acontecido naquela viagem. Volta e meia, eu levantava a cabeça (discretamente) para ver se não vinha ninguém ao banheiro ou à geladeira.
Aquela boca molhada, aquela língua quente, aquela sucção, (tudo) era muito mais do que eu podia imaginar em meus melhores sonhos. Quem diria que aquele franzino mocinho fosse dono de toda aquela espetacular “técnica” que me fazia “deslizar pelas nuvens!”
Aos poucos foi sentindo o corpo todo tremer. Fiquei ainda mais ofegante... sentia a cabeça da verga latejar, quando percebi um toque em meu ombro e ouvi uma voz ao longe... (que se aproximou rapidamente):
- Moço... moço, acorda: preciso me sentar!
Um conto de Cao Benassi
Em Maio/18
MACUMBA GOSPEL
Cena I
Nice, dedicada e “virtuosa” cristã, sempre se orgulhou dos princípios que recebeu no imponente templo que frequentava. “Zelosa” das “Palavras de Deus”, a piedosa alma nunca se conformava com aquelas que ainda não foram alcançadas pela “libertadora” salvação, a garantia de vida eterna.
Como zelosa alma que era, profissional abdicada dos anseios mundanos, sentia-se na obrigação de levar a “Luz Divina” aos seus pupilos por meio de intermináveis orações no início de suas aulas, quase sempre “incorporando” o Espírito Santo.
Para ela, era inadmissível que existissem no local em que exercia o “sacrossanto sacerdócio docente” colegas de profissão “macumbeiros”, os quais ela considerava “figuras condenadas à “perdição eterna””, pessoas que por não merecerem o reino dos céus, a elas estavam reservados os calores dos infernos, aos “adoradores do demônios”...
Naqueles dias, haveria festa e comemorações em seu ambiente de trabalho e, coincidentemente, irmã Nice foi escalada para compor uma banca que tinha como membro um dos “famigerados macumbeiros”. Dada a proximidade do evento, irmã Nice inicia sua “campanha” de oração. Enquanto isso, Guto (o macumbeiro) adoece misteriosamente, sem que os médicos consigam encontrar a origem de tal mal súbito ou mesmo diagnosticá-lo.
Cena II
Néia, outra profissional da escola, bateu à porta de irmã Nice para pegar alguns objetos pedagógicos de sua pertença, os quais Nice tomou emprestado e convenientemente se esqueceu de entregar.
Irmã Nice, que até aquele momento continuava em oração, se levantou e abriu a porta para receber a colega de trabalho. Uma pequena filipeta de papel escapou-lhe do joelho, sem que ela percebesse. Néia, que havia sido convidada a se sentar e esperar até que irmã Nice buscasse seus objetos, se abaixou e a recolheu.
Néia se espantou com o que leeu!
Alguns dias depois, ao encontrar-se com Guto em seu local de trabalho, Néia discretamente entregou a ele a filepeta de papel amarelada e explicou:
– Tome cuidado! Fui à casa de irmã Nice pegar umas coisas minhas daqui da escola...
– E...
– Ela estava ajoelhada rezando. Quando se levantou, isso caiu de seu joelho!
– Ham... como assim... meu nome?!
No outro dia, no terreiro:
– Mãe...
– Não precisa dizer nada... eu já sei. Filho, ela... ela “quebrou” seu anjo da guarda!
Um conto mirabolante de Cao Benassi
2018
AUTÓPSIA
O relógio “batia” cinco da matina e meu fofolusco de quatro patas, já latia e arranhava a beirada de meu colchão, pedindo para sair do quarto. Acordar cedo, para mim, era habitual em virtude da impaciência do Bob.... mas naquela segunda-feira, acordei realmente mais cedo do que de costume. Coloquei o dog para fora, tomei um longo banho e me vesti para “estar em casa” durante mais alguns momentos. Preparei e saboreei meu café́ da manhã como frequentemente o fazia.
Seria mais um dia comum em “minha nada mole vida”, desses carregado da monotonia e impaciência dos motoristas no trânsito lento, dos motoqueiros passando a “toda” pelo corredor formado entre os carros, do estressandinho buzinando atrás (sinceramente, por quê estes tais não helecopterizam?)... do Bom Dia sempre acompanhado pelo largo sorriso de Marisa (uma das recepcionistas do IML) [...]
[...] do trabalho quase sempre monótono nos corpos que diariamente aparecem por lá, da volta pra casa em condições semelhantes a ida, do “abraço” e da alegria do Bob ao meu ver chegar, do som da velha e boa gaita (herança do meu velho e saudoso pai), da comida cheirosa e quentinha de mamãe!
Seria: a não ser pela experiência que vivera naquela segunda feira.
Mamãe ainda dormia: quase sempre acordava tarde... ela costumava malhar no início da noite, o que lhe proporcionava um sono tranquilo e reconfortante, quando o motivo não era a noitada anterior. Após me preparar para o dia de trabalho que tinha pela frente, peguei mais uma caneca de café: deslizei o dedo no tablet a procura de uma notícia que não me fizesse revirar o estômago!
Mas como sempre... estamos, como o aval do supremo, mergulhados num verdadeiro “mar de merda”... Após desistir da inútil empreitada, chequei meu e-mail e dei uma “olhadelada” nas redes sociais. Coloquei os fones e selecionei uma de minhas coletâneas musicais preferidas: The best of Maria Callas e o tempo voou! Quando dei por mim: estava quase atrasado! Apanhei a chave do possante, despedi-me de Bob e desci os nove andares debaixo de mim, pelas escadas como costumava (diuturnamente) fazer, evitando com isso, o uso dos elevadores.
Após quase uma hora de trânsito, estacionei no meu local de trabalho. Ao entrar, (como sempre) fui recepcionado por Marisa e seu largo sorriso. Troquei com ela meia dúzia de palavras, enquanto ela me entregou a papelada dizendo que a minha espera estava “o presunto do dia”. Respondi-lhe que presunto bom é presunto de Parma, fatiado, na barquinha, com creme de ricota e tâmaras! E enquanto saía, a ouvi exclamar:
– O dia que fizer me convide!
Voltei-me para o balcão, sorri (com ar galanteador) e completei:
– Sábado às 20:30... não vá se atrasar!
Marisa sorriu e me informou que Léo (o técnico em necropsia) já́ estava a minha espera. Fui até o vestiário, me preparei para minha “missão” cotidiana. Entrei na sala e o encontrei já com o cadáver aberto. Cumprimentei-o e o indaguei sobre o que tínhamos para aquele dia. Ele me respondeu que "o presunto do dia" tinda sido uma jovem mulher de 32 anos, negra, 1 metro e 72 centímetros de altura, 52 quilos, sem perfurações, leve inchaço abdominal, equimoses pleurais, congestão visceral e fluidez sanguínea. O experiente companheiro me pergunta se podia se tratar de um caso de asfixia.
Respondi que pelo seu relato, tinha quase certeza disso e que, no entanto, estava intrigado com a história do inchaço abdominal. Levantei o pano que cobria o corpo, descobrindo-o a face (fiquei impressionado com a beleza daquela que um dia fora, por certo, uma linda mulher!) O cabelo alisado me chamou atenção... examinei-o cuidadosamente e conclui pelos sinais no couro cabeludo, que ele sofrera alterações químicas durante anos seguidos, fato que me ajudou no constructo da minha tese para a causa mortis.
A partir daí, centrei minhas atenções na cavidade abdominal. Minha hipótese de trabalho estava por se confirmar. Encontrei nos intestinos, no estômago e no esôfago, vários abcessos! Examinei-os por alguns instantes e solicitei ao Léo que perfurasse o primeiro. Este secretou um líquido aquoso, espesso, malcheiroso, provocado pela inalação de uma toxina chamada “seu cabelo é grenho!”
A cada perfuração, novas mazelas que afligiram, em vida, aquela mulher, foram sendo a nós reveladas, se descortinando uma a uma ante nossos olhos... Ela inalara por anos, misturas de substâncias altamente tóxicas de “amarra esse cabelo”; de “negrinha”; de “guria feiosa”; de “macaca”; de “escurinha”; de “não quero me sentar perto dela” de “bonitinha, mas é nega”; de “vá alisar esse cabelo” e de “só serve pra dar uns pegas”, elementos que iam me confirmando as certezas sobre a causa daquela morte tão prematura.
Já estava com minha questão de trabalho quase respondida. No entanto, faltava ainda examinar os pulmões e as vias respiratórias do cadáver: os sinais de asfixia eram contundentes. Por meio deles (e do exame minucioso dos abcessos esofágicos, estomacais e intestinais), já́ era possível entender a causa mortis daquela mulher, no entanto, tinha que cumprir todo o misancene do ritual necrótico.
Ao examinar as vias respiratórias do cadáver, percebi manchas avermelhadas, com bordas já́ tendendo para o preto, principalmente, aquelas próximas aos vasos que se romperam durante a morte (daquela que um dia fora uma linda mulher). Igualmente, os pulmões apresentavam grandes manchas de igual tonalidade, além do sangue ainda sem coagulação, conforme me informara meu competente companheiro de trabalho.
Tanto as vias respiratórias quanto os alvéolos pulmonares apresentavam uma espécie de secreção. Um forte mal cheiro preencheu toda a sala, tornando nosso trabalho quase inviável. Nos olhamos em silêncio: um silêncio que parecia denunciar a gravidade da causa daquela morte.
Aquela secreção fora ali depositada durante anos de inalação de várias toxinas, tais como: “queria estar trabalhando nessa sala. Que pernas...”; “como você se sente sendo a gostosona daqui?”; “oh... lá́ em casa!”; “eu trago a salsicha e você, gostosa... traz o quê?”; “nossa, hoje tem, hein? A noite promete!”; “passa no meu gabinete depois do expediente pra gente relaxar um pouco!” e o pior: de passada de mão na coxa; de mordidinha na orelha; de apalpação dos seios, encoxada por trás e beijo na bochecha. Esta última muito recente: provavelmente a que a levou a óbito!
Concluído o procedimento, retirei as luvas, a máscara e comecei a responder os questionários ali mesmo. Léo me interrogou sobre a conclusão da autópsia. Disse-lhe que aquela mulher entrara em óbito por asfixia oxipriva indireta, sendo a causa mortis, a “inalação de gases tóxicos” provenientes de opiniões alheias de cunho altamente racista. Esclareci (ainda) para o atento companheiro de trabalho, que se caso ela, não tivesse sido asfixiada por tais “gases”, a “ingestão” dessas opiniões, mais cedo ou mais tarde, fatalmente lhe tiraria a vida!
Um conto de Cao Benassi
Julho/2018
AS MARIAS LÁ DE CASA: AS SENHORAS ANCESTRAIS
O dia começou bem quente. De fato, os últimos meses foram os mais difíceis para o debilitado médium que convalescia, tendo quase sempre ao seu lado o tagarela Juninho, seu “bineto” querido. Noutros tempos, o ranzinza e rabugento velhote passava os dias a reclamar, fazendo questão de deixar bem claro o horror que era viver.
Aquela doença – que outrora qualificava como maldita – lhe endureu os dedos, dificultando tarefas simples do dia-a-dia, como, por exemplo, segurar o talher para se alimentar, além de prendê-lo naquela cama, da qual raramente se levantava.
Mesmo com toda dificuldade imposta pela enfermidade, sentia-se agradecido. Conseguia agora até brincar com a situação. O médium “calou” por um instante os seus pensamentos. De olhos fechados, respirou fundo e, com profunda gratidão, agradeceu a Oxalufã e brincou:
- Finalmente grande, encurvado e lento como tu és! Com todo respeito, meu Pai. Tu sabes que é só uma piadinha! Quem sou eu para ser grande como tu o és!
Sorriu. Lembrou-se de toda sua caminhada, das lições de vida e da transformação pela qual passou durante todos os longos anos de dedicação ao trabalho na prática do amor e da caridade e, consequentemente, no trabalho docente. Uma lágrima escorreu pelo enrugado rosto, enquanto levantou a trêmula mão para enxugá-la. A emoção que lhe enchia o peito, escapou-lhe pelos olhos, sem que o bondoso homem pudesse contê-la.
Como se tornara rotina nas últimas semanas, sua respiração estava ofegante. Uma repentina crise de tosse afligiu o convalescente senhor, enquanto o querido e preocupado Juninho entrou aos pinotes no quarto, com olhos arregalados e bradou:
– Mamãe, mamãe: acuda “bivô”!
O gentil bivô tratou logo de acalmar o bineto assegurando-lhe que tudo estava bem. Lentamente, a situação se normalizou. Juninho pulou na beirada da cama que sustentava o velho. A querida Liliana entrou e ralhou com seu filho. O bom velho sorriu e afirmou que estava tudo bem: o garoto afagou-lhe o braço, fazendo-o lembrar da prima Jô, muitos anos atrás a afagar o braço “sanfonado” da querida vó Nica. O garoto, com ar de traquina e olhos de pidão, interpelou o querido bivô:
– Bivô, conta a história das Marias?
– É uma história com muitas facetas, meu bineto!
– Bivô, conta aquela que tem as Senhoras Ancestrais!
– Tudo bem, meu trifio! Tá preparado?
– Humrum! Prontíssimo, bivô!
– Já te falei das Marias lá de casa que te dão a mão, uma atrás da outra nas gerações que vieram antes de você: sua mamãe e, ao lado dela, suas tias; atrás dela, sua vó e ao lado dela, suas tivós; e assim por diante. Mulheres fortes, valentes, guerreiras que fizeram nossa família de sangue prosperar e, se você existe hoje, foi essa corrente de Marias de mãos dadas que o trouxe aqui!
– Bivô... fala de como a tatavó espiritual te deu a mão!
O debilitado senhor marejou os olhos d’água. Com a voz quase embargada, continuou:
– Sua tatavó Maria Matos entrou em nossas vidas num momento meu muito complicado. Complicado mesmo, mas foi transformador! Devo o ser humano esclarecido, paciente e mais virtuoso que sou hoje, aos seus ensinamentos.
– Bivô sofreu muito naquela época, né?
– Sim, meu lindo! Desde pequenino como tu, eu já tinha mediunidade. Já via e ouvia muita coisa, porém eu não entendia. Cresci e com isso minha mediunidade se manifestou de forma muito desordenada. Fui até hospitalizado por isso. Não que a mediunidade seja um mal na vida de quem a porta, meu filho... só precisava de cuidados e orientação. Conheci o espiritismo Kardecista, que me ajudou muito, graças a Deus. Mas eu sentia que faltava algo...
– Faltava bivô desenvolver e trabalhar na prática do amor e da caridade, né bivô?!
– Sem dúvida! Foi quando um anjo sem asas, enviado por Deus, me levou ao Centro Espírita de Umbanda Pai Jeremias. Minha história seria totalmente mudada por meio do trabalho e da orientação espirituais de sua tatavó espiritual. Naquela época, meu trifio, eu estava muito mal. A vida estava uma complicação só... Cheguei ao terreiro, totalmente ressabiado, com medo e ao mesmo tempo curioso. Naquele dia, me consultei com duas Pretas Velhas que me disseram ter uma coroa muito luminosa. Voltei ao terreiro nas semanas seguintes, ainda tentando me livrar dos preconceitos adquiridos ao longo da vida, sobre a Umbanda.
– Você pensava que era coisa do “Coisa Ruim”, n'é, bivô!?
– Sim! Por orientação da Preta Velha Mãe Zeferina, pedi permissão a sua tatavó espiritual para trabalhar naquela seara. Minha vida, a partir dali, começaria a mudar completamente, meu bineto querido. Sua tatavó tinha um coração onde cabia muitos mundos. O amor dela pela Umbanda e pelos seus filhos de fé era contagiante: jamais me esquecerei. Diante do meu pedido, não pensou duas vezes em me acolher...
O atento menino interrompeu o lúcido senhor:
– Tatavó vivia de mãos dadas com Nossa Senhora da Conceição. É muito amor, é amor de Deus!
– Sem dúvida alguma, meu querido! Toda minha vida mudaria para melhor a partir daquele sim, pronunciado em meio a um doce sorriso: um sorriso de Mãe. Eu jamais podia pensar que pelos olhos daquela Maria, a quem naquele dia eu dava minhas mãos e a colocaria em nossa família espiritual, pudesse transformar-me como ser humano. Os braços que me acolheram foram os braços de todas as Marias, todas as Senhoras Ancestrais e Divinas! Os olhos que me olharam foram também das Divindades de Deus, de Olorum, de Zambi, de Vixenu, de Javéh: de nosso Pai Maior.
– Simplesmente de Deus, n'é... bivô?!
– Sim, meu lindo! De forma que cheguei à conclusão que nunca fora tão bem acolhido, como fora naquela casa santa. Sua tatavó espiritual me deu a mão e por ela eu tive o mais genuíno encontro com Deus.
- Como no encontro do guerreiro Arjuna com o Deus Krishina, bivô?!
– Exatamente! Quando Arjuna encontra-se com Krishina, meu filho, ele pede para ver Deus (Krishina) em sua plenitude, e este se revela a ele. Arjuna se diz abraçado por milhões de braços divinos, milhares de bocas falam a ele, assim como milhares de olhos de Krishina veem Arjuna: exatamente assim, todas as Marias Ancestres me abraçaram, me olharam. Todas as bocas das Senhoras Ancestrais me orientaram, todos os olhos me viram, por meio dos braços, da boca e dos olhos de sua tatavó, meu trifio! Aquele dia eu jamais vou esquecer!
– Que lindo, bivô! Sua história é muito linda... Quando crescer, quero ser igual a você, bivô: um grande homem! Nunca se esqueceu de ninguém que te estendeu a mão. Seus padrinhos e madrinhas, a tatavó, o tio que te apresentou ao centro, os guias que te acolheram e os que te escolheram e trabalharam contigo. É tudo muito lindo!
– Sim. É, meu trifio! Tudo isso foi possível graças ao trabalho incansável de sua tatavó espiritual. Assim como eu, muitos outros filhos nasceram espiritualmente de sua tata. Tantos que eu não sei contar, conheci uma mínima parte deles. E todos eram tratados com o mesmo amor, com o mesmo desvelo, meu bineto.
Ao dizer isto o debilitado senhor fechou os olhos e ficou em silêncio por alguns instantes. Sua respiração se tornou ofegante e, novamente, o médium tossiu. Juninho se preocupou, mas logo é tranquilizado pelo amado bivô, que o observou por alguns minutos com profundo interesse, antes de continuar sua elucubração:
– A dedicação e a força de sua tata espiritual na condução daquela seara, era de fazer gosto em qualquer um, meu trifio! O amor com que cuidava de nossas coroas, era o mesmo com que nos orientava e nos doutrinava quando era preciso...
– Tata tinha a irradiação do trono da justiça divina, n'é... bivô?!
– E como tinha, meu filho! Não só do trono da justiça: todos os sete tronos da irradiação do poder de Deus, meu querido: o conhecimento, com o qual nos guiava e nos orientava na seara do bem; a lei, com a qual matinha tudo sempre dentro da normalidade e da decência, segundo a ordenação divina; o amor que sempre inundou nossas vidas, que transformou tantas existências, como foi comigo... essa irradiação... Não teve um só momento em que convivi com sua tata e ela não se fizesse presente; a geração divina, que nos trazia todas as oportunidades de crescimento espiritual que precisávamos; a elevação por meio da qual nos aproximamos de Deus; e, por último, a fé divina, sem a qual, meu filho, não é possível agradar nosso Senhor, nosso Pai Maior. Sua tata era uma mulher sábia, amável e uma grande professora da fé. Esteve a serviço da Lei Maior, formou grandes filhos na fé e na lei divina, uma missão gloriosa, meu filho!
– Que lindo, bivô, é inspirador! Bivô, tata tá na Aruanda? É verdade que você vai pra Aruanda também? Bivô me leva junto?
O velho e debilitado senhor engoliu seco, cafungou duro e, sem saber o que dizer, desconcertado, meneou a cabeça afirmativamente. Uma lágrima furtiva lhe desceu pela face. Como continuar aquela conversa? Talvez não conseguisse nem disfarçar que aquelas perguntas, lhe deixaram num beco sem saída. Para sua sorte, Liliana entrou no quarto e os interrompeu.
Reposicionou a cama, na qual o senil homem estava deitado, enquanto ergueu novamente o prato de sopa numa das mãos e disse:
– Tá na hora de sua sopinha, vovô!
Juninho imediatamente a interpelou:
– Mamãe, deixa eu fazer aviãozinho no bivô? Deixa, mamusca!
ACASIS
(Cena 1)
Ok… Amanheceu! Hummmm! Hummmm! Hummmm! Abre! Abre… abre djiabu! Mais que merrdé-éssa! Todu djia é a merrma coisa… todu djia sa'pôrra tem quimperrá… óia que eu tô mi'imputecenu cum issu! Satanáis duzinfernus: abri naum pravê… oh djiabu! Nu djia quieu acorrdá viradu, tchiarrancu d'ssaparedji!
Dispois que meterum essi posti aí na frenti, ieu naum tenhu mais sussegu… todu djia éigualin… hammmm… marrdito prefeitindi'merda sô é essi… só vévi nu beinbaum… robanu tuduquipodi… nóizaqui, hum… tudu na merrda! Sa'pôrra tá ié cerrta… ah si fossieu: atéu préidiu da prefeitura ieu robava toméin!
Qui djabu di sol quenti dusinfernu… mininu du céu… quarqué djiadess morru torradu! Vá pra putaquipariu… meu… percisa duma'ingonoransa dessa! É merrmu um sol pracadaum! Ô satanais duzinfernu… vai prudjiabu quiticarregui!
Vamu-qui-vamu… o djia tá começanu bien… ah! se tá! Vamu vê u-quiéque-tein nessa pôrra de TV pra-gentivê! Hum-hum-hum… jornau-da-grobo! intaum-tábaum… Bora vê i'passá-um-pretunussacu!
Isso era rotina nas manhãs de Acasis. Diuturnamente, a primeira coisa que fazia, era se debater com a velha persiana, que estendida sobre a janela que dava para a rua, ainda encobria a luz que vinha da lâmpada instalada recentemente pela prefeitura, no poste ficava praticamente em frente à janela de seu quarto e que o atrapalhava pegar no sono.
Acasis todos os dias repetia a mesma cena: acordar; abrir a persiana; se irritar com ela; dizer palavras de baixo calão, que por certo arrastavam sua consciência para baixo. Ele não conseguia perceber que a velha persiana, usando uma expressão do próprio Acasis, "já tinha dado o que tinha de dar".
Trocá-la era a resolução daquele problema. Porém, ele não conseguia perceber isso. Já estava automatizado, além disso, já tinha naturalizado aquele comportamento. Inconsciente, Acasis necessitava da velha persiana emperrando todos os dias, para que o seu padrão vibracional negativo fosse mantido. De certa forma, ele projetava a troca, no entanto, essa troca sempre era adiada pelos mais variados motivos, que a sua mente arrumava diariamente para que tal persiana permanecesse ali.
Tem que trocá sa'merrda dess'persiana… Maizisó nu mêisquivein… agora teinqui pagá a pensaum qui atrazô nu mêis passadu… foda sô… o quê-qui-tinha dibotá fii nu mundu… agora-guenta!
Uhuuuul! Ié issu merrmu! Sapôrra do STF mandô beinhein! Teinqui-pêgá essis borsonarist'dimerrda tudin! teinqui-pêgá i'descêucasseti! botâ tudu nu xilindró, merrmu! Mandá tudin proquintuduzinfernu… cambada de fiidumaspu…
Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii djiaaaaaaaaaaaaabu!!!!!! Cantudiporrta fiidusatanás… arrombadu… fudiducarií… Que djiaaaaaabu… praga! Rrrrrapaputaquipariu… ôôôôôô... djiabu didedinduídu da pôrra… sa'merrda dessa porta naum pudia ter sidu feita um cadin mais larga, naum? Caraidideduídu veii… praquetudissu?
E ainda resmungando, pega na geladeira um pouco de leite, um pão murcho que ainda restava da compra da semana anterior e serviu a si, um pouco de café num copo tipo americano, já desbeirado por causa dos anos seguidos de uso, sem o devido cuidado e sem a consciência do valor do copo como objeto a serviço dele. Tomou o café da manhã às pressas, como sempre, aliás.
Sa'porra dipaum muchiba ducarií, manu… que merrdeéssa? Hammmmmmm!!!!!! Sa'disgraça di relógiéumapraga… óia a hora quijáé! Dá tempu ditumá um café cumgostu naum… é inguli i'saí correnu! Todu djia n'sa'bagaça! Cadê a pôrradachavi? Maisiqui djiabuéissu? Ondi foi pará… o'zinfernu?!
Quidisgraçeéssa merrmaum… será o cramuinhão qui pegô… vai dirigi-u'quêêêêê djiabo! maieu tô dizenumerrmu… satanais duzinfernu… Hahhhhhh! Tá aí… pestchiada!!!! Bora… bora… qui hoji é chegá atrasadu dinovu… bora prepará ozovido, chegá lá… vai tê falatoru!
O bichu brutuducaum! Porta mardita… vai caí dú cheba veii! Percisa fechá num'ingonoransa dessa! Pega oh djiabu… pega lataveia! Vamu fiidumarronquifuça! Pega djiabu… a misericruzencredu… arrmaria cheia disgraça… vai… pega… pega djiabu… pegô! Cunreza vai né pesti!
Mergulhado numa aura de energias negativas, Acasis consegue, sob muita reclamação, ligar o carro. Enquanto dirige pelas ruas coletoras do afastado bairro do centro onde trabalhava no posto de gasolina, ele consegue se tranquilizar. Liga o rádio do velho VW Gol, no programa de músicas sertanejas matinal. Até que chega a avenida principal.
Cabanaum mundão… pega fogu cabaré!!!!
Devido ao seu costumaz atraso, Acasis acelera o motor do velho carro, dirigindo em zigue-zague pelo trânsito. Entre lombadas, lentidão e semáforos fechados, ele vai avançando rumo ao seu destino e não demora muito, surge um carro muito lento à sua frente:
Ô'fii-di-rra-pa-ri-gaaaaa!!!! Fiidiputaaaaaaa!!!!! Ô'miséra… cornuduzinfernu… sai da frenti… sá'praga… pesti'ducaráiu… vai mi'atrasá marr'aina fiadaputa!!!!!!!! vai djiabuuuuuuuu!!!!!! fica prá tráizinfernu… quéuqueúquéu rapá… vendiessa jossicompraumpatineti… hehehehehe… ohhhhhh modaum ducaráleu!!!!!!! cabanaum mundaum!!! armentauvolumi d'sapôrra pranozaí… Hêêêêêêêêêêê morena, sardade qui tenhu djitú!
"Até tentei, naum consegui mim segurar… mim deu vontadi dissabê como ela tá… cada fotu quieuôiu… é uma dosiquieu tomu… ieudô un'goli ichoru… ieudô ungoli i'choru…" Uquêquijá foi pras'sapôrra?
Um pequeno acidente à frente, fez o trânsito parar. Era só mais uma situação cotidiana na vida automática e repetitiva de Acasis. Mal sabia ele que tudo aquilo estava enredado, como fios numa trama, eram na verdade vozes do universo que queiram lhe dizer algo.
No entanto, ele estava ocupado demais na repetição dos seus padrões rotineiros, para perceber que todo esse repetitivo estresse com a persiana, podia ser evitado, trocando-a por uma nova. Não conseguia sequer perceber que não tinha plena consciência do espaço da própria casa. Se percebesse, conseguiria entender que a porta não precisava ser alargada, mas sua consciência sim.
Também não conseguia perceber que todo o desgaste sofrido diariamente no caminho para o trabalho e, consequentemente, no seu retorno, poderia ser evitado se ele acordasse e saísse de casa, 30 minutos antes. Infelizmente, como era de se esperar de um ser que vive no automatismo e na repetição, na cabeça dele, os problemas serão resolvidos, no dia que ele enriquecer.
Um conto de Cao Benassi
Abril/2024

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